Salvador Sobral é diferente. Ele mostra a alma, mas essa figura incomoda os nossos olhos. Não é a cantora alta e magra a que estamos habituados. Não é o rapaz com as calças a cair, deixando os boxers espreitar o mundo. Não é modelo, nem segue a moda actual. Ele é ele, e não pretende ser algo que não é. E por isso mesmo, é diferente.

Quando vi pela primeira vez o vídeo da canção portuguesa vencedora para a Eurovisão a minha primeira reacção foi estranheza. Depressa corri os comentários dos portugueses. Foi com uma dor, disfarçada de tristeza, que constatei a forma cruel e medíocre como trataram este jovem. O crime: ser diferente num mundo de normais. Sentença: Culpado! Culpado por ter nascido nesta sociedade em que não há espaço para a liberdade pessoal. Que culpa tem o mundo de que ele não goste de cantar sem sentimento, de que ele não saiba acompanhar dançarinos? Culpado por ser só um cantor que transborda emoção e que sente cada palavra que deixa pousar na melodia…

Depois os meus olhos abriram-se. Sabem o que eu estava a ver? Era ele! Como podia ter sido ele! A personagem principal do “Todos Iguais, Poucos Diferentes” entrou-me pelo coração adentro, personificado. Como teria ido o meu louco cantar ao festival da Eurovisão? Teria ido cantar com o seu estranho casaco preferido. Teria tido comportamentos anormais. Teria cantado para ele, não para o mundo. Aquela personagem que criei com tanto carinho, com sofrimento também, estava ali à minha frente, no ecrã do computador. Emocionei-me. Foi como se a minha criação me tivesse vindo dizer um olá. Embora o Salvador Sobral nem sonhe com tais pensamentos de uma escritora com tão escassa lucidez.

Qual de nós teria tido coragem em aparecer na televisão de uma forma tão sincera, tão genuína? Mas ainda assim criticamos. “…somos aspiradores da nossa própria individualidade..” diz uma página do meu livro. Não aspiremos nós agora o talento de quem sabe sentir. Não façamos nós com que o Salvador se esconda por não ser compreendido e que leve com ele todo o seu talento. Pelo menos não agora. Que saibamos abrir os olhos para o diferente. Mas com admiração. Com orgulho.

9 COMENTÁRIOS

  1. Anormal é escrever um título deste, sem respeito pela pessoa de quem se escreve.
    Tira-me logo a vontade de ler o artigo.

      • Um título e uma imagem são a primeira palavra que se te tem sobre um assunto.
        Como é um artigo de opinião, eu dei a minha e você a sua, mas continuo a achar o título muito ‘bulling’ e depreciativo para qualquer pessoa a que se refira.
        Particularmente, atrevo-me a perguntar-lhe/vos: se fosse um familiar vosso que, sendo portador de alguma deficiência ou situação menos comun, como se sentiriam se ouvissem chamá-los de anormais?
        Mas respeito o artigo, só me choca o título, pois em momento algum disse que não o tinha lido, apenas que não me dava muita vontade de o ler.

        • @Luís Pedro
          Pois… isso é como julgar um livro pela capa. Tem capa feia, não quero ver o conteúdo! É precisamente contra “visões” do tipo “Um título e uma imagem são a primeira blá blá blá…” que a autora do trabalho se insurge! Pessoalmente atrevo-me a dizer que o título poderá ser apelativo a quem queira ler sobre a “desgraça” de terceiros (ou até que julguem ser o Salvador um ´anormal´), para de seguida levarem umas “boas palmadas” da autora. Creio ainda estar a tempo de me redimir! Eu próprio julguei a aparência do Salvador. “Mea Culpa”! Da mesma forma reconheço a genialidade do rapaz. O texto da autora não tem, absolutamente, nada de bullying…

  2. Eu acho o título fantástico por isso mesmo. Foi a denominação que muita gente deu ao rapaz. A opinião de quem a escreveu é completamente oposta ao título como está expresso no texto se for lido. Ou seja, usou palavras de outros para criar o seu título com o objectivo de criar reacções e vontade de ver o que vem a seguir e conseguiu. Aqui está a prova.
    Lá está. As opiniões não são um reflexo do que está correcto ou errado, são apenas isso, opiniões.
    Eu por exemplo não acho piada nenhuma nem á musica nem ao rapaz mas essa é a minha opinião. E agora? Não tem a ver com discriminação, tem a ver com gosto. Gosto de Rock mas não gosto de Jazz.

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