Quem é o Mickael Oliveira?

Tenho 27 anos, nasci e vivo em França. Sou filho e neto de emigrantes portugueses. Isto é, os meus avós emigraram com os meus pais, mas os meus pais voltaram mais tarde para Portugal. Porém, passado um tempo, regressaram a França. Sou mestre em estudos lusófonos pela Universidade Paris-Sorbonne Paris IV. A nível profissional, sou consultor média. O meu trabalho consiste em tornar mais positiva a imagem das marcas francesas e internacionais na imprensa.

 

Sabemos que escreveu este livro em 2011 durante o segundo ano de mestrado. Como surgiu a ideia do livro?

Escrevi o livro em 2011, enquanto redigia a minha tese do primeiro ano de mestrado, sobre as representações do emigrante em França e imigrante africano em Portugal na literatura e nos médias portugueses. Para a tese, inspirei-me muito de duas obras, Livro de José Luís Peixoto, e Kikia Matcho do autor bissau-guineense Filinto de Barros. E usei alguns artigos ofensivos, publicados tanto por jornalistas como colunistas, sobretudo do Expresso e do Correio da Manhã, do João Pereira Coutinho ou do Henrique Raposo, por exemplo.

O objetivo da minha tese foi encontrar e estabelecer paralelismos entre o emigrante e o imigrante nos médias e na literatura, tanto em termos de uso de todo um campo semântico da violência (nos médias) como a nível da perpetuação de lugares-comuns (na literatura).

No fundo, quis mostrar que os preconceitos que existem na sociedade portuguesa encontram um grande eco na literatura e nos médias portugueses. Por exemplo, o emigrante ou o lusodescendente é muitas vezes visto como uma espécie de “traidor” que, a partir do momento em que “abandona” o país, faz tudo para se tornar francês e ao mesmo tempo esquecer as suas origens. Da mesma forma, o imigrante africano ou o luso-africano é visto como um ser que, quando chega a Portugal, faz tudo para se tornar “branco”, com toda a simbologia que isto acarreta.

Todo esse trabalho de pesquisa e de análise mexeu muito comigo, assim como o facto de ter passado um ano em Coimbra de Erasmus e ter ouvido muitas coisas sobre os emigrantes. Foi um misto disto tudo que me levou a escrever um livro, para expulsar todo a raiva que havia em mim e tentar explicar com palavras simples o que é a identidade luso-francesa.

 

Porquê escrever sobre a guerra colonial e os emigrantes?

Apesar de, nestes últimos anos, terem aparecido mais livros sobre o tema, continuo a achar que existe muito pouca informação sobre a emigração dos anos 50-70. Mesmo na escola portuguesa que frequentava em França, ensinaram-nos muita coisa, das diversas invasões até agora, mas nunca nos falaram das condições de vida em Portugal durante a época de Salazar, da emigração forçada e dos exilados políticos. Da Guerra Colonial então, acho que era preciso relembrar todas as razões que levaram os portugueses a sair de Portugal. Não era apenas por questões económicas como agora. As pessoas queriam fugir da pobreza extrema e ser livres. E um dos maiores símbolos dessa liberdade foi para mim a deserção. Recusar o combate, uma guerra injusta como todas as guerras.

A nível pessoal, confesso que foi importante para mim escrever sobre essa temática porque os meus avós vieram a salto com os meus pais para França. O meu avô paterno viu um cadáver pelo caminho… o meu avô materno viveu num bairro de lata… Os meus próprios pais conheceram-se num parque de campismo, no qual viviam em caravanas.

 

“Nenhum lugar é vário”, o que pretende sugerir com este título?

Significa que todos os lugares são únicos. É uma verdade absoluta e ao mesmo tempo uma provocação. Porque somos cada vez mais parecidos, apesar das nossas diferenças. É também um título poético, e estranho para o ouvido dos portugueses.

 

 

Porque é que o livro só foi editado recentemente?

Em 2011, contactei muitas editoras portuguesas. Recebi algumas respostas positivas. Mas não estava preparado para defender o conteúdo da obra. E quis deixá-la amadurecer, desapegar-me um pouco dela. Depois, surgiu a proposta do Ozias Filho, das Edições Pasárgada. O processo também durou algum tempo mas ele conseguiu-me convencer de que valia a pena publicar este livro.

Este foi o único livro que escreveu?

Por enquanto sim.

 

Continua a escrever? Onde busca a inspiração?

Sim, continuo. As nascentes da minha inspiração são múltiplas. As memórias dos verões passados nas minhas duas aldeias, Outeiro do Louriçal e Vascos, no Concelho de Pombal, as estórias da minha família, e claro, todos os livros que li, os filmes que vi, as músicas que ouvi. Gosto principalmente do estilo de escrita do Mia Couto e do José Saramago. O mundo mediático e as obsessões francesas (a Identidade) e portuguesas (a Imagem) também interferem muito naquilo que escrevo.

 

Sabemos que trabalhou como jornalista, ainda continua nesta profissão?

Não. Tive uma breve passagem pelo mundo do jornalismo. Fui jornalista numa redação desportiva francesa que passou a ser uma das rainhas do clickbait. Escrevi durante 3 anos artigos sobre cultura portuguesa no principal semanário franco-português, o LusoJornal, principalmente sobre música e cinema lusófono. E também escrevi crónicas e realizei dezenas de entrevistas para o blogue lisboeta BandCom, sobre música portuguesa.

 

Quais os projetos para o futuro?

A nível profissional, continuar a minha progressão como consultor média. A nível pessoal, pensar talvez num segundo livro.

 

Sendo filho de emigrantes, como vê Portugal?

A minha visão de Portugal é, apesar de todas as minhas leituras, muito reduzida. Só vivi um ano em Portugal, em Coimbra, de Erasmus. E não acho que a cidade que descobri corresponda à vida portuguesa “real”. É um microcosmo… estranho.

Mas posso dizer-vos que tenho muitas saudades dos verões passados na minha aldeia. Parece que era tudo mais simples. Havia muito mais vida, mais presença, mais coscuvilhice. Os anciãos eram mais numerosos, toda a gente tinha animais, porcos, galinhas, vacas… era o paraíso das crianças.

Hoje em dia, as pessoas veem-se menos, conhecem-se menos, fecham-se em casa como nas cidades, os mais velhos já são poucos, os mais novos emigraram ou foram para cidades com mais oferta de trabalho. A própria escola fechou… A minha visão é muito menos idílica hoje, mas talvez por eu ter mais idade e ser mais consciente.

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Vanessa Saudades
Natural da vila de Cabeço de Vide, situada no Alto Alentejo. É licenciada em Jornalismo e Comunicação pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Portalegre. É jornalista no Coração Luso.

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